II

A teoria do eros

COM o conhecimento adquirido atravs das descries do 
captulo anterior, a questo do trauma foi inesperadamente respondida. Em compensao, a pesquisa 
viu-se diante do problema do conflito ertico, que contm uma srie de elementos anormais, 
conforme mostra o nosso exemplo, e por isso,  primeira vista, no  comparvel a um conflito 
ertico comum. O que chama a ateno, em primeiro lugar, de um modo quase inacreditvel,  que 
s a aparncia parece ser consciente, ao passo que a verdadeira paixo da paciente fica oculta. 
Nesse caso, no h dvida de que a relao verdadeira ficou na penumbra, enquanto s a relao 
aparente dominava o campo da conscincia. Se formulssemos teoricamente essa realidade, 
obteramos a seguinte proposio: na neurose existem duas tendncias, que esto em estrita 
oposio uma  outra, sendo que uma delas  inconsciente. Formulei-a intencionalmente nessa 
forma genrica, pois quero salientar que o conflito gerador da doena, embora no deixe de ser um 
fator pessoal, tambm  um conflito da humanidade inteira, em vias de manifestar-se, porque o 
desacordo consigo mesmo  um sinal do homem cultural. O neurtico  apenas um caso especfico 
de pessoa humana em conflito consigo mesma, tentando conciliar dentro de si natureza e cultura. 
Como  sabido, o processo cultural consiste na represso 17 progressiva do que h de animal no 
homem;  um processo 
de domesticao que no pode ser levado a efeito sem que se insurja a natureza animal, sedenta de 
liberdade. De tempos em tempos, como que uma onda de embriagus varre a humanidade que vai-
se encravando dentro da coao cultural: a Antiguidade experimentou isso na onda de orgias 
dionisacas vindas do Oriente, que depois se integraram como um elemento essencial e caracterstico 
da cultura antiga. Seu esprito contri11 
buiu, em larga escala, para que o ideal estico de numerosas seitas e escolas filosficas do ltimo sculo aC 
evoluisse para a ascese e o caos politeistico daquele tempo desse origem s religies ascticas de Mitra e de 
Cristo. Uma segunda vaga de embriagus dionisaca de libertao percorreu a humanidade ocidental durante a 
Renascena.  difcil fazer um julgamento crtico do tempo em que se vive. A srie de questes revolucionrias 
levantadas na segunda metade do sculo passado inclua uma questo sexual, que suscitou toda uma 
corrente literria. Nesse movimento radicam tambm os primrdios da psicanlise. Isso influiu 
consideravelmente na evoluo unilateral da sua formao terica. Ningum fica completamente imune  
influncia das correntes contemporneas. Assim  que a questo sexual foi visivelmente relegada para um 
segundo plano, dada a premncia dos problemas polticos e ideolgicos. Contudo, isso em nada altera o fato 
bsico de que a natureza instintiva do homem sempre colide com as barreiras culturais. Os nomes vo 
mudando, mas o fato permanece o mesmo./,Ioje em dia, sabe-se tambm que nem sempre  s a natureza 
instintiva animal que est em desacordo com a coero cultural. Muitas vezes, novas idias so premidas do 
inconsciente para a luz do dia, entrando em choque com a cultura dominante, tanto quanto os instintos. 
Atualmente, seria fcil estabelecer uma teoria poltica da neurose, uma vez que o homem atual est sendo 
agitado principalmente por .paixes polticas, s quais a questo sexual constitui apenas um prembulo sem 
maior importncia.  possvel que ainda se venha a constatar que os abalos polticos no passam de 
precursores de uma convulso religiosa, de repercusses muito mais profundas. O neurtico participa, sem ter 
conscincia, das correntes dominantes do seu tempo, que esto configuradas em seu prprio conflito. 
 A neurose est intimamente entrelaada com o problema do prprio tempo e representa uma tentativa 
frustrada do indivduo de resolver dentro de si um problema universal. A neurose  uma ciso interna. Na 
maioria das pessoas, essa ciso representa uma ruptura entre o consciente, que desejaria manter-se fiel a seu 
ideal moral, e o inconsciente, que  atrado por seu ideal imoral (no sentido atual da palavra) e que a 
conscincia tudo faz para desmentir. Esse tipo de pessoa  o daquelas que gostariam de ser mais decentes do 
que no fundo so. No entanto, o conflito tambm pode dar-se no sentido 
inverso: h pessoas aparentemente muit indecorosas e desprovidas de convenes. No fundo, isso no 
passa de uma atitude pecaminosa, pois nelas o lado moral est no fundo, no inconsciente, da mesma forma que 
a natureza imoral no homem moral. (Por isso, sempre que possvel, os extremos devem ser evitados, porque 
provocam a suspeita do contrrio) - 
Foram necessrias essas consideraes de ordem geral, para 19 
tornar o conceito de conflito ertico mais compreensvel. A 
partir dessa colocao, poderemos discutir, por um lado, a 
tcnica psicanaltica e, por outro, a questo da terapia. 
Essa tcnica implica evidentemente a seguinte pergunta: 
qual o caminho mais seguro e rpido para se chegar ao conhecimento do que ocorre no inconsciente do 
paciente? O primeiro mtodo aplicado foi a hipnose: o paciente era interrogado em estado de concentrao 
hipntica, ou ento era induzido  produo espontnea de fantasias, no mesmo estado. Hoje esse mtodo 
ainda  empregado ocasionalmente, mas, comparado  tcnica atual,  obsoleto e, muitas vezes, insatisfatrio. 
Na clnica psiquitrica de Zurique desenvolveu-se um segundo mtodo: o chamado mtodo associativo. 
Este mtodo indica com preciso a presena de conflitos, na forma dos denominados complexos ideo-
afetivos, manifestados nas perturbaes tpicas das vivncias. 2 Mas o mtodo mais importante para se chegar 
ao conhecimento dos conflitos patognicos  a anlise dos sonhos. Foi Freud o primeiro a demonstr-lo. 
Pode-se dizer que o sonho  como a pedra desprezada pelos pedreiros e que depois se tomou a pedra angular. 
Efmero e insignificante produto da nossa alma, o sonho nunca foi to desprezado como em nossos dias. 
Antigamente, era muito valorizado como um prenunciador do destino, admoestando e consolando, como um 
emissrio dos deuses. Hoje,  utilizado como porta-voz do inconsciente; sua funo  revelar os segredos que 
a conscincia desconhece, e realmente o faz com incrvel perfeio. O sonho manifesto, isto , o sonho tal 
como nos lembramos dele, segundo Freud,  como a fachada de uma casa:  primeira vista nada revela de seu 
interior, que fica oculto por detrs da chamada censura do sonho. Permitindo-se que a pessoa fale sobre 
os detalhes de seu sonho  
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obedecidas determinadas regras tcnicas  vemos que as idias que lhe ocorrem seguem todas uma mesma 
direo, concentrando-se em torno de um assunto especfico, de significado pessoal, Inicialmente, essas idias 
assumem um sentido que se dissimlava por trs do enredo do sonho. Uma anlise comparativa minuciosa 
desse sentido pode revelar, no entanto, a relao sutilssima dos seus menores detalhes com a fachada do 
sonho. Esse complexo especfico de pensamentos em que se concentram todos os fios do sonho  o conflito 
procurado, que se apresenta numa variao condicionada pelas circunstncias. Na opinio de Freud, o lado 
desagradvel e incompatvel do conflito fica to velado ou diludo, que se pode falar em realizao de desejo.  
evidente que os casos de satisfao de desejos expressos  como os sonhos de sensaes corporais  ocorrem 
raramente, mas existem. Por exemplo, acontece que uma sensao de fome manifestada durante o sono possa 
ser satisfeita por um sonho em que o desejo de comer  aplacado por uma farta refeio. Outro exemplo seria o 
sonho que se tem na hora em que  preciso levantar-se, quando se quer continuar dormindo: o desejo  
satisfeito sonhando-se que j se levantou. E assim por diante. Mas so poucos os sonhos assim to simples. 
De acordo com Freud, tambm existem desejos inconscientes, incompatveis com as idias conscientes do 
estado desperto. So os desejos desagradveis, que prefe. rimos no conhecer. Entretanto, so justamente os 
elementos formadores do sonho. Por exemplo: uma filha tem um amor carinhoso pela me; no entanto, para 
grande desespero seu, sonha com a morte da me. Freud diria que essa filha tem o desejo penoso, mas 
inconsciente, de que a me (contra quem nutre resistncias secretas) desaparea deste mundo o mais breve 
possvel. Mesmo a filha mais irrepreensvel pode ter tais desejos. No entanto, ela os repeliria violentamente, 
caso quisssemos responsabiliz-la por isso. Aparentemente, o sonho manifesto no satisfaz nenhum desejo, 
mas exprime temor e preocupao, ou seja, exatamente o contrrio do suposto impulso do inconsciente. Ora,  
sabido que um excesso de preocupao, freqentemente, e com razo, suscita a suspeita do contrrio. (O 
leitor crtico ter razo em perguntar: ser exagerada a preocupao expressa no sonho?). So incontveis os 
sonhos desse tipo, em que aparentemente no h o menor indcio de realizao de desejo. O conflito elaborado 
no sonho  inconsciente; o mesmo se d com a respectiva tentativa de 
soluo. Existe na filha que teria sonhado uma tendncia real de afastar a me: na linguagem do inconsciente 
isso significa: 
morte.  bvio que ela no pode ser considerada responsvel por essa tendncia, pois, para sermos exatos, 
no foi ela quem fabricou o sonho, mas sim o seu inconsciente.  este que tem a tendncia de afastar a me, 
sem que a filha o saiba. O fato de essas coisas se manifestarem nos sonhos prova, justamente, que no so 
pensadas conscientemente. A filha no compreende por que a me deveria sumir de sua frente. Pois bem, sabe-
se que uma certa camada do inconsciente contm tudo o que ficou perdido em termos de reminiscncias e 
todos os impulsos infantis que no puderam ser utilizados na vida adulta. Pode-se dizer que quase tudo o que 
vem do inconsciente tem primeiramente um carter infantil. Assim, tambm este desejo, que parece muito 
simples: papai, quando a mame morrer, voc casa comigo, no ? Tal desejo infantil, assim expresso, substitui 
um desejo recente, mas doloroso (por motivos ainda no apurados), de casar. Este pensamento, ou melhor, a 
seriedade da sua inteno, , por assim dizer, recalcada no inconsciente, exprimindo-se necessariamente de 
modo infantil, uma vez que o material de que dispe o inconsciente  composto em grande parte de 
reminiscncias infantis. 
No sonho em considerao, trata-se, aparentemente, de um impulso infantil de cime. De certa maneira, a filha 
est apaixonada pelo pai; da o desejo de afastar a me. Seu verdadeiro conflito, porm,  o seguinte: de um 
lado, gostaria de se casar; masde outro, no consegue assumir a deciso.  assaltada por dvidas como: 
nunca se sabe no que vai dar; ser que  o homem certo?; etc. Por outro lado, a vida na casa dos pais  to 
boa; vou ter que me separar da mezinha querida, tornar-me adulta, independente.., ser que vou conseguir? 
No entanto, percebe a seriedade da questo do casamento, que exige uma tomada de posio e no permite 
recuo para os braos de papai e mame, envolvendo a famlia toda no problema que o destino lhe prope. 
Deixou de ser a criana de outrora; agora  algum que quer casar. Ela se situa como tal, isto , com o desejo de 
conquistar um homem. Mas na famlia o homem  o pai, e  nele que recai, sem que a filha o perceba, o desejo 
de conquistar um homem. Mas isso  incesto. Da resulta uma intriga incestuosa secundria. Mas, na opinio 
de Freud, a tendncia incestuosa  primria: a verdadeira razo pela qual a filha no consegue decidir-se pelo 
casamento. Para 
 
ele, as outras razes invocadas no tm grande importncia. Em relao a esta interpretao, venho 
sustentando h muito tempo o ponto de vista de que o aparecimento ocasional do incesto no prova a 
existncia de uma tendncia universal para o incesto, assim como um assassnio no revela a existncia do 
prazer de trucidar como fonte geradora de conflitos em todos os homens. Mas tambm no pretendo negar que 
em cada indivduo exista, potencialmente, a possibilidade de cometer qualquer crime. Mas entre a existncia do 
germe e o conflito real  com a ciso de personalidade da resultante, como  o caso da neurose  h uma 
diferena colossal. 
 Quando se acompanha atentamente a histria de uma neurose, sempre se depara com o momento crtico do 
aparecimento de um problema do qual o indivduo se desviou. Ora, esse desviar-se  uma reao to natural e 
constante como a preguia, o comodismo, a covardia, o medo, o no saber e a inconscincia que esto em sua 
base. Em geral hesitamos diante de coisas desagradveis, difceis e perigosas, e delas no nos aproximamos. A 
meu ver, estas razes so plenamente convincentes. A sintomatologia do incesto  que  inegvel e foi vista 
por Freud com inteiro acerto  me parece ser um fenmeno secundrio, mrbido. 
 Muitas vezes o sonho apresenta pormenores aparentemente pueris,  primeira vista ridculos e exteriormente 
sem p nem cabea, deixando-nos, quando muito, intrigados. Por isso, num primeiro momento, sempre h uma 
resistncia a vencer, antes de nos darmos seriamente ao trabalho paciente de desenrolar, fio por fio, a trama 
emaranhada. Quando, finalmente, deparamos com o verdadeiro sentido de um sonho, j penetramos no mago 
dos segredos de quem sonhou e vemos, cheios de espanto, como um sonho aparentemente desprovido de 
sentido  engenhoso e s exprime coisas graves e importantes. Esta constatao requer de nossa parte um 
maior respeito pelo que se chama de superstio da interpretao de sonhos, que o racionalismo da nossa 
poca desprezou ostensivamente at agora. 
1/Como diz Freud, a anlise do sonho  a via regia para se chegar ao inconsciente; por conduzir aos 
segredos pessoais mais profundos, torna-se um instrumento de inestimvel valor nas mos do mdico e 
educador da alma. 
O mtodo analtico em geral, e no s a psicanlise freudiana, consiste precipuamente em numerosas anlises 
de so nhos 
j que so eles que vo trazendo  tona, sucessivamente, os contedos do inconsciente no decorrer 
do tratamento, expondo-os  fora purificadora da luz do dia. Nesse processo tambm so 
redescobertos muitos fragmentos valiosos, que se julgava perdidos. Assim sendo, o incio do 
tratamento no pode deixar de ser um suplcio para muitas pessoas que tm uma falsa imagem de si 
mesmas, pois, aplicando o antigo ditado mstico abre mo do que tens e recebers, tero que 
renunciar a quase todas as caras iluses que tm a seu respeito, para deixar brotar algo muito mais 
profundo, maior e mais belo dentro de si. Uma sabedoria antiqssima volta  luz do dia, com o 
tratamento. Curiosamente,  no auge da nossa cultara atul que esse tipo de educao da alma se faz 
necessria. Tal processo educativo  comparvel, em mais de um aspecto,  tcnica socrtica, no 
obstante serem bem maiores as profundidades atingidas pela anlise. 
A orientao da pesquisa freudiana tentava demonstrar a primazia do fator ertico-sexual na origem 
do conflito patogmco. Segundo essa teoria, h uma coliso entre a tendncia do consciente e o 
desejo imoral, incompatvel, do inconsciente. O desejo inconsciente  infantil, ou melhor,  um desejo 
proveniente do passado infantil que no se adequa mais ao presente, razo pela qual  reprimido, e 
isso por motivos morais. O neurtico tem a alma de uma criana e suporta mal as restries 
arbitrrias, cujo sentido no reconhece; alis, ele procura apropriar-se dessa moral, mas desavm-se 
consigo mesmo. Quer reprimir-se, por um lado, e libertar-se, por outro. A este cnflito dahos o 
nome de neurose. Se esse conflito fosse claro e totalmente consciente,  provvel que nunca daria 
origem a sintomas neurticos; estes s aparecem quando no se consegue ver o outro lado do 
prprio ser, nem a premncia dos seus problemas. O sintoma parece produzir-se unicamente nessas 
condies, e ajuda o lado no reconhecido da alma a exprimir-se. Segundo Freud, o sintoma , 
portanto, uma realizao de desejos no reconhecidos, que, se fossem reconhecidos, entrariam em 
violenta oposio s convices morais. Como j dissemos, o doente no pode lidar com ele, nem 
melhor-lo, aceit-lo ou renunciar a ele porque, na realidade, seus movimentos impulsivos nem mais 
existem, pois foram recalcados, eliminados da hierarquia consciente, transformando-se em 
complexos autnomos. Pela anlise, e s depois de vencidas enormes resistncias, esses impulsos 
so devolvidos  tutela da 
conscincia. H pacientes que se vangloriam, dizendo que neles o lado sombrio no existe; asseguram que no 
tm conflitos. No vem, porm, que em compensao esbarram em outras tantas coisas, cuja origem 
desconhecem, tais como humores histricos, artimanhas tramadas contra si mesmos ou contra o prximo, 
inflamaes estomacais de origem nervosa, dores aqui e ali, irritabilidade sem motivo aparente, e todo um 
squito de sintomas nervosos. 
 A psicanlise de Freud foi acusada de libertar no homem os instintos animais (felizmente) reprimidos, 
provocando com isso uma catstrofe de conseqncias imprevisveis. Este receio evidencia a pouca confiana 
que se deposita na eficcia dos atuais princpios da moral. At parece que s a pregao moral pode impedir o 
homem de se precipitar numa libertinagem desenfreada. No entanto, a necessidade  um regulador muito mais 
eficaz, pois estabelece limites para a realidade, o que  muito mais convincente do que todos os princpios 
morais reunidos.  certo que a psicanlise pode tornar conscientes todos os instintos animais, mas no, como 
alguns interpretam, para deix-los entregues a uma liberdade sem freio, e sim para integr-los num todo 
harmonioso. Alis, quaisquer que sejam as circunstncias,  uma vantagem poder dominar plenamente a 
personalidade; caso contrrio, os contedos reprimidos vo aparecer em outro lugar, estorvando o caminho  e 
isso no em pontos secundrios, mas justamente nos pontos mais vulnerveis. As pessoas, quando educadas 
para enxergarem claramente o lado sombrio de sua prpria natureza, aprendem .o mesmo tempo a compreender 
e amar seus semelhantes; pelo menos, assim se espera. Uma diminuio da hipocrisia e um aumento do 
autoconhecimento s podem resultar numa maior considerao para com o prximo, pois somos facilmente 
levados a transferir para nossos semelhantes a falta de repeito e a violncia que praticamos contra nossa 
prpria natureza. 
Segundo a teoria freudiana da represso, parece, no entanto, que s as pessoas de moralidade excessiva 
reprimem sua natureza instintiva. Logo, a pessoa imoral, que no pe freios aos seus instintos, deveria ser 
completamente imune  neurose. A experincia nos ensina, evidentemente, que no  este o caso. Esta pode 
ser to neurtica quanto aquelas. A anlise de uma pessoa imoral revela que houve simplesmente uma  
represso do lado moral. Um neurtico imoral  a imagem do plido 
criminoso, que no est  altura do seu ato, to bem descrito por Nietzsche. 
Num caso assim, poderamos supor que os restos de decncia reprimidos no passariam de convenes 
tradicionais infantis, que puseram freios desnecessrios  natureza instintiva, razo pela qual seria melhor 
extirp-las de uma vez por todas. Com o princpio crasez linfme, culminaramos numa teoria da fruio 
absoluta. Naturalmente, isto seria completamente fantstico e absurdo. Pois no devemos esquecer  e 
devemos isso  escola de Freud  que a moral no foi trarida do alto do Sinai em forma de tbuas e imposta ao 
povo, mas constitui uma funo da alma humana, to antiga quanto a prpria humanidade. A moral no nos  
imposta de fora, ns a temos definitivamente dentro de ns mesmos, a priori; no a lei, mas o ser moral, sem 
o que seria impossvel conviver na sociedade humana. Eis por que a moral  encontrada em todos os nveis da 
sociedade.  um regulador instintivo das aes, ordenando tambm a convivncia das hordas animais As leis 
morais, porm, s tm validade dentro de um grupo de convvio humano. Fora dele, deixam de existir, pois 
reina, desde sempre, aquela verdade antiqssima: homo homini lupus (o homem  o lobo do homem).  
medida que uma cultura se desenvolve,  possvel submeter massas humanas cada vez maiores ao domnio de 
uma mesma moral. No entanto, at hoje foi impossvel estabelecer uma lei moral que se impusesse alm dos 
limites da sociedade, isto , no espao livre de grupos que no dependem um do outro. A, como no tempo dos 
nossos ancestrais, impera a ausncia do direito e da disciplina e a mais completa imoralidade; esta, no entanto, 
s  denunciada pelo inimigo casual que com ela se confronta. 
A prtica freudiana est de tal forma convencida da importncia fundamental e exclusiva da sexualidade na 
neurose que, para ser coerente, passou a atacar corajosamente a moral sexual de seu tempo. Isto, sem dvida, 
foi til e necessrio, pois dominavam nesse terreno, como ainda hoje, concepes insuficientemente 
diferenciadas, em vista da complexidade da questo. Assim como na baixa Idade Mdia a transao a dinheiro 
era profundamente desprezada, devido  inexistncia de uma  moral casustica diferenciada da transao, 
sujeita apenas a uma moral global, hoje pode-se dizer que s existe uma moral sexual global, indiferenciada. 
Uma moa solteira que tenha um filho  condenada, e ningum pergunta se ela  uma  
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pessoa digna ou no. Qualquer forma de amor que no tenha o beneplcito do direito  imoral, quer seja vivido 
por pessoas de grande valor ou por canalhas. Isto porque ainda estamos hipnotizados por o que o homem 
faz, esquecendo-nos do como, exatamente como as transaes de dinheiro na Idade Mdia, identificadas com 
o metal reluzente, objeto de cobia e, portanto, com o prprio diabo. 
 A coisa no  to simples assim. O erotismo constitui um problema controvertido e sempre o ser, 
independentemente de qualquer legislao futura a respeito. Por um lado, pertence  natureza primitiva e 
animal do homem e existir enquanto o homem tiver um corpo animal. Por lado, est ligado s mais altas formas 
do esprito. S floresce quando esprito e instinto esto em perfeita harmonia. Faltando-lhe um dos dois 
aspectos, j se produz um dano ou, pelo menos, um desequilbrio, devido  unilateralidade, podendo resvalar 
facilmente para o doentio. O excesso de animalidade deforma o homem cultural; o excesso de cultura cria 
animais doentes. Este dilema mostra toda a insegurana que o erotismo traz ao homem. No fundo,  algo muito 
poderoso que, como a natureza, pode ser dominado e usado, como se fosse impotente. Mas o triunfo sobre a 
natureza se paga muito caro. A natureza dispensa quaisquer declaraes de princpios, contenta-se com 
tolerncia e sbias medidas. 
Eros  um grande demnio, declara a sbia Diotima a Scrates. Nunca o dominamos totalmente; se o 
fizermos, ser em prejuzo prprio. Eros no  a totalidade da natureza em ns, mas  pelo menos um dos seus 
aspectos principais. A teoria sexual da neurose freudiana fundamenta-se, portanto, num princpio verdadeiro e 
real. Comete, no entanto, o erro da unilateralidade e da exclusividade, alm da imprudncia de querer apreender 
Eros, que nunca se deixa capturar numa grosseira terminologia sexual. Neste ponto Freud  tambm um dos 
representantes de sua poca materialista , que nutria a esperana de resolver todos os enigmas do mundo num 
tubo de ensaio. O prprio Freud, depois de velho, reconheceu essa falta de equilbrio de sua teoria e contraps 
a Eros, que chamou de libido, o instinto de morte, ou de destruio. L-se 
3. Jung, Sigmunci Freud ais kuUurhistorische Erscheinung. Obras completas, Vol. 15. 
4. Esta idia  de autoria de minha aluna Dra. S. Spielrein. CL Dia Destruktion ais Ursache cles Werdens, publicado no .ahrbuch fr 
psgcluxinalytische und psychopathoiogische Forschungen, 1912. Este trabalho  mencionado por Ereud. Freud Introduz o impulso de destruio ou de 
morta em seu ensaio Ienseits das LuStprinzips, Capitulo 5. 
em seus escritos pstumos: Depois de muito hesitar e oscilar, resolvemos admitir apenas dois 
impulsos bsicos: Eros e o impulso de destruio... A meta do primeiro  estabelecer unidades cada 
vez maiores e conserv-las; logo,  unio. A meta do outro, ao invs,  dissolver relaes e assim 
destruir as coisas. Por isso, tambm  chamado de instinto de morte. 
Contento-me com esta referncia, sem entrar mais a fundo nas controvrsias acerca do conceito.  
claro que a vida, como todo ciclo, tem um comeo e um fim e que cada comeo tambm  o 
comeo do fim. Freud quer dizer, provavelmente, que todo ciclo  um fenmeno energtico e que a 
energia s pode ser produzida pela tenso dos contrrios. 
34 
5. S. Freud. Abrias der Psychoanaiyse, Capitulo 2, p. 70. Obras pstumas. Londres. iou. 
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